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  • Foto do escritorJefferson W. Santos | Ad Astra

Composição Japeri: Sobre lajes e pertencimento






A vida organizacional me ensinou valiosas lições que me proporcionaram desenvolvimento não só como profissional como, também, pessoa e cidadão.


Ademais, entendo ser essa uma das principais missões, razões de existir de uma organização ou empresa: Por intermédio da interação humana, entregar bens ou serviços, mas, também, proporcionar o desenvolvimento social e econômico de seus trabalhadores e da comunidade onde essa empresa está inserida.


A pessoa quando sai de sua casa em direção ao trabalho tem a expectativa de realizar algo e por isso ser remunerado. Todavia, também tem uma vontade subliminar, silente, de pertencer a um conjunto maior de pessoas e de propósito. Enfim, uma organização (ou empresa) proporciona a essa pessoa uma identidade, um senso de utilidade e um senso de propósito.


Essas foram reflexões colhidas ao longo de mais de trinta e cinco anos lidando com pessoas em organizações -militares e privadas- e, com o tempo, o sair de casa para trabalhar deixou de ser algo pesado, algo de rotina: quando se percebe a dimensão maior do que você está fazendo enxerga-se o propósito. Isso aprendi ser um diferencial significativo na vida das pessoas.


Hoje reflito com certa perplexidade quando vejo discussões acerca da manutenção das atividades “home office”. Pode ser, até, que o grau de produtividade seja maior, o que é bom para a empresa e para o indivíduo. Todavia, a convivência com outras pessoas, a interação, a oportunidade de participar do desenvolvimento conjunto não só dos objetivos econômicos da empresa como, também, do desenvolvimento social e pessoal das pessoas que lá habitam ao longo de um expediente.


Portanto, orientar, preparar e contribuir para a melhoria dos funcionários com pessoas, profissionais e cidadãos é uma obrigação subliminar, não só de líderes setoriais, gerentes ou diretores. Também é uma obrigação dos pares, de cada um que tenha uma experiência anterior, uma visão ou um método de se fazer algo melhor ou, até mesmo, de se contribuir com experiências que agreguem valor.


Entretanto, ter empatia é essencial. Aliás, é a base para a construção de relacionamentos e tudo o que, a partir daí, puder ser edificado. Sem empatia não há relacionamento sadios, consistentes e profícuos.


Conhecer as origens, as condições vivenciadas, seja no lar ou no local de trabalho, conhecer e respeitar os medos, os receios, as ansiedades ajudam a entender o indivíduo e, a partir de então, procurar agregar valor ao relacionamento funcional e ao dia de trabalho como um todo.


Algumas atividades com as quais interagi ao longo da carreira me permitiram avaliar a dimensão da interação humana e da utilidade social. Um grupo, em particular, sempre me chamou a atenção pelo sentido de identidade e de coesão entre os trabalhadores: A construção civil.


Essa área junta-se a mais de cerca de setenta por cento das empresas com CNPJ no território brasileiro onde expressiva parcela de seus viventes simplesmente não tem condições de entregar um bem ou um serviço de forma remota, “home office” ou qualquer outro neologismo por intermédio dos quais buscam rotular o mercado de trabalho.


Tive oportunidade de fiscalizar algumas obras nas organizações militares onde trabalhei. Reconheço que o ambiente sempre é insalubre e não há como ser diferente. Além do pó, da sujeira, da desarrumação natural -e por vezes necessária- do ambiente de trabalho, há a incidência inclemente do sol, da chuva, do ruído e outras características que agravam a insalubridade do ambiente. Simplesmente em um sítio de construção, não há como ser diferente.


Dentre alguns dos profissionais dos quais nutria um grande respeito, haviam os pedreiros, os serventes dos pedreiros, os carpinteiros, os soldadores e os ajudantes de obra. O ambiente sempre era ruim e desconfortável contudo, eu não via nenhum vitimismo ou “coitadismo” entre eles ao longo da execução de suas atividades. Convém ressaltar que assim os via em grupo, em uma área de construção. Já não posso falar o mesmo daqueles que são contratados para empreitadas individuais em residências.


De todas as experiências que tive, ou fiscalizando obras -para certificação e consecução de contratos de licitações- ou dando apoio às equipes de construção de estradas de ferro ou de asfalto, eu nunca presenciei um pedreiro ou carpinteiro “meia boca”, ou “meia sola”.


Todos com os quais tive oportunidade de interagir -e não foram poucos- tinham um extremo zelo acerca da qualidade da entrega de seus “produtos”. Não havia “corpo mole”, não presenciava reclamações sobre falta ou inadequação de material, tampouco de condições de trabalho. Era um verdadeiro “arregaçar de mangas” e “resolver a parada”.


Recordo das vezes que acompanhava algum colega de infância na “aventura” de sair de Mesquita RJ, rumo à Zona Sul na capital carioca para voltar para a casa com seu pai, fosse ele um pedreiro ou marceneiro. Algumas das vezes pude constatar a satisfação e o brilho nos olhos dele ao, do ponto do ônibus, olhar o prédio já em acabamento, já com outra equipe encarregada. Era um troféu. Aliás, mais um troféu que eles guardavam com orgulho e carinho. Também era comum quando eles levavam a família às praias da zona sul, após um périplo nos vagões dos trens da Central do Brasil, para após mais quase uma hora em ônibus lotado, descer no ponto de ônibus próximo ao prédio que ele havia dado parte de sua vida, dedicação, profissionalismo e melhor de si. Ele, com muito orgulho, apresentava à família. Era algo muito bom de se presenciar.


Dessas experiências levei -ao longo da carreira- a noção de “identidade”. Sim, eles faziam questão de pertencer a um grupo diferenciado. Pude, em outras oportunidades, constatar a solidariedade entre eles para ajudar aquele com dificuldades em dar consecução às suas responsabilidades. A solidariedade se estendia ao que dissesse respeito à vida particular ou, até apoio à família. E neste particular, sempre testemunhei entregas, ou seja, ainda cansados, auxiliavam vizinhos no que lhes fosse necessário.


Lembro, com carinho e até saudades, da famosa faina de “virar uma laje”. Era quando um vizinho de poucos recursos tentava “aumentar o barraco” para acomodar a família que crescia ou algum parente que vinha do interior para “tentar a sorte no Rio”.


Virar uma laje” era divertido para nós adolescentes, pois tinha sempre um convívio fraterno entre nós, todos auxiliares do pedreiro que entregava sua expertise para ajudar o vizinho.


“Virar uma laje” era uma ciência, não era para qualquer um. Errar na mistura do cimento com a areia e a brita ou na “amarra” do vergalhão era quase “um crime”. Dificilmente acontecia, pois, a fiscalização era próxima e cerrada, afinal, o cliente tinha poucos recursos e comprava o material de construção nas “fixas” (prestações -a rigor eram prestações fixas financiadas pelo próprio dono da loja).


A faina só terminava quando o pedreiro aprovava. Ele não aceitava serviço malfeito. Afinal, se alguém perguntasse: “Quem tocou aquela obra?”, ele responderia com orgulho. Ai de nós se trabalhássemos errado ou fizéssemos corpo mole. No fim, até eu sentia um “quê” de identificação com aquela obra.


E o melhor, a cereja do bolo estava no fim da tarde, quando o inclemente sol se punha, costas vermelhas e cabelo ressecado de pó de cimento. Tinha o “feijão”, a cerveja e o pagode. Tempos bons que guardo muitas saudades.


Outro aspecto que lembro é que eu nunca me deparei com qualquer daqueles trabalhadores de construção reclamando da vida. Nunca os vi fazendo corpo mole em nenhuma circunstância. E a vida para eles era duríssima, pois seus locais de trabalho normalmente eram na zona sul do Rio. Havia trem e ônibus para pegarem e, após mais de hora e meia, chegar ao local da construção. E outro tanto igual para voltar para casa.


Das minhas alegres recordações convivendo com eles e outros dos bairros da Baixada Fluminense era o “Japeri” das 05:30h. Eram chamados de “composição”. Uma composição regular era de nove vagões que, já em Mesquita RJ, já “descia” lotado para a capital fluminense. Havia os tenebrosos dias em que as “composições” atrasavam e, para piorar, ao invés de nove vagões vinham apenas seis. Eu nunca desvendei o mistério da Física onde todos que tinham a expectativa de embarcar em uma composição de nove vagões caberem em uma composição com apenas seis vagões. Mas ocorria e eu era testemunha, pois estava dentro do aperto.


De Mesquita até a estação do Engenho de Dentro a diversão era garantida. Piadas, imitações de pessoas, artistas etc. Bullying era algo inexistente, pois qualquer um fora do eixo do Rio-SP era “nortista”. Nordestino naquela época só quem sabia era estudante.


Desconfiava do tamanho da região nordeste, pois até cearense era chamado de nortista. Havia uma evolução carinhosa: “Paraíba”. Era para qualquer pessoa com a cabeça um tanto fora do “tamanho” comum entre os cariocas. E a maior quantidade deles estava na turma da construção, também carinhosamente chamada de “a turma da laje”. Sempre alegres, falantes e descontraídos. Eram muito bons aqueles dias.


O sentimento de grupo, de identidade ficava patente nas ocasiões dos jogos de futebol de rua, as “peladas”. No último dia do ano havia a tradicional pelada dos “casados contra os solteiros”. Era muito esperado aquele jogo. Contudo havia uma preliminar. Era o “pessoal da laje” contra o “resto”. O resto era quem não fosse casado ou que não trabalhasse na construção civil. O impressionante é que o “pessoal da laje” não perdia. Mesmo que houvesse alguns de outros bairros, convidados para a “pelada” e mesmo não trabalhando na mesma obra havia uma impressionante “sintonia” entre eles. Parecia que cada um sabia onde o outro se posicionava e passava a bola sem, sequer, levantar a cabeça. Era impressionante. Eram imbatíveis.


E o mais legal de tudo eram as histórias e estórias de seus feitos nas construções onde trabalhavam. Falavam com um orgulho que nos contaminava. Com o tempo, ao relembrar daqueles dias, eu passei a vê-los como se fossem uma “grife”, uma identidade, um “corpo uníssono”.


Esses atributos incomensuráveis me serviram de orientação e base para muitas das organizações onde trabalhei. Sempre procurei incutir esse tipo de pensamento e de comportamento.


A lição que fica é que o cidadão circunspecto, escorreito, ainda que de poucas posses, tem sua realização no grupo ao qual ele se sente incluso. A perfeita definição de pertencimento.


Em home office, longe do ambiente de trabalho, nada dessa grandiosidade é permitida. Portanto, valorizar o ambiente de trabalho é, também, valorizar a si e as pessoas a sua volta.


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